O PROCESSO DE KAFKA COMO ALEGORIA DO JULGAMENTO SOCIAL E DA CULPA INTERIOR: UMA ANÁLISE SOBRE IDENTIDADE, TRANSGRESSÃO E CONDENAÇÃO SIMBÓLICA
Resumo
Este artigo propõe uma leitura de O Processo, de Franz Kafka, que transcende a interpretação jurídico-burocrática superficial. A obra constitui uma alegoria complexa sobre o julgamento social, a culpa interior e a repressão da identidade individual. Através da análise da trajetória de Josef K. e de seus encontros com personagens-chave como a senhorita Bürstner, a lavadeira objetificada, Leni e o sacerdote, explora-se a hipótese de que o “processo” em questão é, na verdade, um processo de transformação pessoal condenado por um “tribunal social” formado pela família, pelos costumes e pela moral vigente. Investigam-se ainda as possíveis conexões autobiográficas entre Franz Kafka e seu protagonista, sugerindo que a narrativa cifra conflitos íntimos do autor, especialmente em relação à autoridade paterna, às expectativas familiares judaico-conservadoras e a relacionamentos amorosos socialmente interditos. Conclui-se que a condenação e morte de K. simbolizam não apenas um fim físico, mas a morte simbólica do eu autêntico, sufocado pelos mecanismos opressores de julgamento e controle social. A obra se revela, assim, um rico campo de reflexão sobre liberdade, culpa e os invisíveis processos a que todos estamos submetidos.