MULHERES, VULNERABILIDADES INTERSECCIONAIS E OS PARADOXOS DA TRANSFORMAÇÃO TECNOLÓGICA
Abstract
O presente artigo analisa os impactos da transformação digital e da inteligência artificial sobre o acesso das mulheres aos direitos na era das múltiplas crises, com especial atenção às vulnerabilidades interseccionais produzidas pela articulação entre gênero, migração e vulnerabilidade econômica. Parte-se da premissa de que a digitalização de serviços, relações de trabalho e mecanismos de proteção social, embora apresentada como instrumento de inclusão, não opera sobre um terreno social neutro, mas sobre estruturas historicamente marcadas por desigualdades de gênero, raça, classe, território e estatuto migratório. Sustenta-se que as crises contemporâneas intensificam processos de vulnerabilização feminina e que a transformação digital, longe de eliminar tais assimetrias, as reorganiza sob novas formas de exclusão, opacidade e seletividade. Demonstra-se, ainda, que a exclusão digital não se restringe à ausência de acesso à internet ou a dispositivos, abrangendo também letramento tecnológico, navegabilidade institucional, compatibilidade documental e capacidade concreta de converter recursos digitais em fruição efetiva de direitos.